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A febre dos grandes espaços

Transmongoliano a atravessar as planícies da Mongólia, foto por mattermatters

Nem sempre se explica como se escolhe os destinos, às vezes é-se levado por razões mais materiais: um livro, um filme, um monumento (cada vez menos são monumentos que me levam aos sítios). Mas noutras é algo tão intangível e estereotipado como um “chamamento”, uma vontade que vem de dentro embora sem saber bem de onde, que motivo trás ou por que motivo escolhe esta ocasião e não outra.

Há uns anos fui tomado por uma vontade imensurável de espaços abertos, a frase que se formou na minha cabeça foi “preciso de estar no deserto!”, estar num local sem nada em redor, alimentado pelo mito eventualmente desmistificado que paisagens nuas e desprovidas devida e de formas são mais introspetivas e forçam a olhar mais para dentro que para o que nos rodeia. Ia em busca do vazio e fui parar à Islândia, provavelmente a escolha menos óbvia dada a latitude, mas que com os quilómetros de paisagem despovoada e marcada pelo gelo e fogo e cumpriu brilhantemente o objectivo.

Neste momento só penso em longos trajetos por grandes espaços, só penso em fazer o Transiberiano, ou o Transmongoliano, e atravessar as estepes da Sibéria e da Mongólia e fazer 3000km através da imensidão que não acaba, de senti-los a passar debaixo dos pés e consecutivamente olhar a próxima curva do horizonte, para perceber ao lá chegar que nada muda em relação às anteriores. Tenho vontade de me sentir pequeno e ser sentir-me esmagado simplesmente por estar no meio de nada.

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Guias de viagem e fatias de bolo!

A Pixie junto a um dos mais pequenos restaurantes indianos que vi

Não é mentira que um bom guia de viagem é essencial numa mochila de um viajante, como em países sub desenvolvidos onde a informação nem sempre está legível ou à mão de semear. Mais do que as atrações e eventos de cada local, há uma enorme quantidade de pequenas coisas que são o resultado de conhecimento acumulado daqueles que passaram antes nós,  pequenos detalhes sobre a cultura, o dia a dia ou transportes locais, detalhes esses que eventualmente pode-se escolher ignorar e fazer uma viagem de autocarro classificada de “dura e lenta”. Mas nunca como na Islândia isto foi tão óbvio.
Estávamos a chegar a Egilsstaðir, eu e a Pixie, uma filha de hippies Australianos (daí o nome) que estava a viajar pelo Velho Continente depois de terminar a universidade, foi parar à Islândia para variar da paisagem demasiado humanizada da Europa Central, precisava um sítio com menos gente. Eu precisava de um sítio vazio e desolado para pôr as ideias em ordem, um país ligeiramente maior que Portugal e com apenas 300.000 habitantes pareceu o sítio ideal para ambos. Tinhamos isso em comum, para além de ambos gostarmos de tatuagens de estrelas, ela andava a tatuar uma em cada país por onde passava, na Islândia tinha acabado de tatuar uma estrela no cotovelo com as cores da bandeira Islandesa.

Centenas de quilómetros assim…

Arrancámos de Reykjavík dias antes em modo road-trip no meu Yaris todo-o-terreno de aluguer. Para a Pixie era primeira vez que estava num clima frio (tinha toda a roupa minimamente quente vestida) e ficava fascinada cada vez que passávamos por um pico nevado. Do meu lado o que me deixava realmente fascinado era não haver nada (de Borgarnes, a última cidade da região de Reykjavík, a Akureyri são 300 km de vazio), quilómetros de apenas estrada pela frente, quilómetros sem presença humana, sem cidades ou vilas, com apenas as quintas que vão esporadicamente passando ao lado, sem sinalização ou placas a tornar a distância mais curta, onde apenas sabe que se está no caminho certo porque não há mais nenhum.

Em Akureyri a acabar o dia com um muffin de chocolate e um capuccino

Por causa desta imensidão tão agreste e desolada os meus dias na Islândia rapidamente ganharam uma rotina: terminar o dia com alguma coisa reconfortante, e de preferência quente. Foi assim em Akureyri, onde na Eymundsson (a FNAC do sítio) acabei o dia a folhear o livro que tem uma das minhas capas preferidas enquanto bebia um cappuccino quente e comia um muffin. Foi também assim  quando chegámos a Egilsstaðir, antes de nos separarmos (a Pixie ia para uma WWOOF enquanto eu ia continuar a minha viagem de circum-navegação à ilha) fomos beber qualquer coisa quente no primeiro sítio que encontramos, bebi o cappuccino elaborado que seria possível beber na terriola sonolenta que Egilsstaðir na verdade é, mas desta cedi à tentação e não comi uma daquelas fatias apetitosas da vitrine.
Quando saímos a Pixie parou a disse “Ainda bem que não comeste ali” e mostrou o meu guia:
“Excelente para café mas evitar a comida a todo o custo, tem excelente aspecto mas na verdade é seca, aguada ou sabe a cebolas”
 Nunca cheguei a saber se o guia estava certo…
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A estrada para Seyðisfjörður


Seyðisfjörður, Foto por Duncan_Smith

“Mas porque é que toda a gente quer ir a Seyðisfjörður?”, reagiu a minha anfitriã quando respondi qual seria a minha próxima paragem, “É um lugar que não é assim nada de especial”.

Seyðisfjörður é uma vila piscatória, tal como muitas as outras povoações costeiras da Islândia, que está encaixada no fim de um fiorde, costuma ser uma paragem normal para quem está em viagem à volta da ilha, até porque apenas há uma única estrada o fazer. Para lá chegar há que percorrer uma um planalto, estéril e sem vida como todas as terras altas destas paragens, até que, de repente, a estrada se afunda para serpentear até à pequena vila e um braço de mar encaixado entre duas paredes rochosas surge em todo o seu esplendor; é uma visão tão avassaladora que exactamente neste ponto existe pequeno parque de estacionamento, certamente para evitar que os turistas que invariavelmente param para tirar mais uma foto não perturbem o pouco trânsito desta estreita estrada.

Realmente Seyðisfjörður não é assim tão interessante, mas chegar lá sem dúvida que é!

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